Melbourne vive febre da NFL antes de Rams x 49ers na Austrália
Ingressos esgotados, ações com torcedores e estratégias diferentes de viagem marcaram a preparação para a estreia da NFL na Austrália.
Melbourne, acostumada a viver o auge da temporada de futebol australiano em setembro, abriu espaço para uma febre de futebol americano. Na semana do primeiro jogo de temporada regular da NFL na Austrália, Los Angeles Rams e San Francisco 49ers ganharam as ruas, os bares e a atenção dos torcedores.
A reportagem de 9 de setembro de 2026 retratou os preparativos para a partida de sexta-feira no Melbourne Cricket Ground (MCG). Cerca de 100 mil pessoas eram esperadas, com a entrada do público a partir das 7h e o início do jogo às 10h35, no horário local.
Os ingressos haviam se esgotado meses antes. Mais da metade do público era esperada de fora do estado de Victoria. Na plataforma oficial de revenda, um assento com visão limitada custava mais de A$ 650 — aproximadamente £350 ou US$ 470.
“Você anda pela rua numa semana de finais da AFL e nem percebe”, disse Thomas McMillan, apresentador do podcast Any Given Sunday Australia. Ele descreveu bares inteiramente dedicados aos 49ers ou aos Rams e até um bonde com a temática de Los Angeles.
Horário americano e viagens longas
O início pela manhã atendia ao horário nobre da televisão dos Estados Unidos e às exigências dos anunciantes.
Desde seu primeiro jogo internacional de temporada regular, em 2007, a NFL transformou as partidas fora do país numa estratégia de longo prazo para atrair torcedores e receita. Em 2026, programou nove jogos no exterior, três deles em Londres.
Melbourne representava a viagem mais distante para jogadores e torcedores americanos. A cidade estava 17 horas à frente da Califórnia, sede das duas equipes, e a adaptação ao fuso horário se tornou um dos assuntos centrais.
“Claro que surgem dúvidas quando você fica sabendo que vai jogar na Austrália”, disse o running back Christian McCaffrey em entrevista coletiva. “Mas tem sido muito legal... a comida é incrível e o café é ótimo.”
49ers chegam antes; Rams apostam numa passagem curta
San Francisco chegou no fim da semana anterior. Os jogadores tiveram tempo para se recuperar da viagem, ajustar o relógio biológico e treinar em um estádio próximo.
Os Rams escolheram a estratégia oposta: chegada na quinta-feira pela manhã em um Airbus A380 fretado da Qantas, jogo na sexta e retorno à costa oeste dos Estados Unidos logo depois. O objetivo era reduzir o impacto na preparação para a partida seguinte.
McMillan considerou a decisão uma aposta: uma viagem de 16 horas poderia provocar jet lag mesmo com a tentativa de evitá-lo. Seu colega de podcast, Danny Webb, lembrou que nem todos conseguem dormir em aviões, independentemente da classe do assento. O tamanho físico dos atletas também dificultava o conforto.
Embora os Rams fossem os mandantes e detivessem direitos de marketing na Austrália pelo programa Global Markets da NFL, os 49ers tiveram maior presença em Melbourne naquela semana.
A disputa pela atenção dos torcedores
Além dos treinos fechados, jogadores de San Francisco participaram de encontros com fãs e de um jogo da AFL. Os ex-atletas Joe Nedney e Jesse Sapolu estiveram num tradicional churrasco de arrecadação de fundos, conhecido como “sausage sizzle”, numa grande rede de lojas de materiais de construção.
O jornalista esportivo Dontay Atkinson previu um MCG majoritariamente vermelho, cor dos 49ers. Nas redes sociais, criticou a passagem rápida dos Rams e a falta de contato dos jogadores com o público australiano.
McMillan disse compreender o foco de Los Angeles na vitória, sobretudo por ser uma equipe considerada candidata ao Super Bowl de 2027. Ainda assim, avaliou que o clube poderia perder a oportunidade de se firmar como o time dos australianos, deixando espaço para San Francisco.
Os Rams rejeitaram a ideia de desprezo pelo público. Stephanie Cheng, responsável pela área internacional da franquia, afirmou que o trabalho no país já durava mais de quatro anos e ia além da semana do jogo.
Segundo ela, Los Angeles era o único clube da NFL com um programa de associados para fãs australianos. A equipe também enviou treinadores a escolas e comunidades para promover o flag football, modalidade sem contato que estará nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028.
Cheng citou visitas anteriores de estrelas, como Kyren Williams em março. Na semana da partida, as cheerleaders passaram por bases militares americanas na Austrália, e os Rams instalaram no rio Yarra um campo flutuante de 22 jardas para atividades com os torcedores.
Austrália entra nos planos de longo prazo
Nenhum jogador australiano estava previsto em campo naquele confronto, mas dezenas atuavam no futebol universitário dos Estados Unidos e alguns estavam na NFL. Muitos eram punters, recrutados pela habilidade de chute desenvolvida no futebol australiano ou no rugby league.
Para Webb, o sucesso de Jordan Mailata, left tackle do Philadelphia Eagles, foi um ponto de virada no interesse local. Em 2025, ele se tornou o primeiro australiano a entrar em campo e vencer um Super Bowl.
O acordo entre a NFL e o estado de Victoria previa três jogos em Melbourne ao longo de quatro anos. Gerrit Meier, diretor e responsável pela área internacional da liga, disse à Reuters que a preferência era por partidas anuais, seguindo o modelo de crescimento no Reino Unido.
Webb relatou a mudança que percebeu entre seus próprios amigos: quatro anos antes, perguntavam por que ele mantinha um podcast sobre um esporte considerado pequeno no país. Na semana do jogo, todos queriam saber como conseguir ingressos.