Opinião: Ditka revolucionou o tight end e deixou um legado além de Chicago
Jarrett Bell recorda a influência do jogador e técnico e os relatos de generosidade compartilhados por Jim Harbaugh.
As homenagens a Mike Ditka após sua morte, aos 86 anos, revelaram diferentes aspectos de uma figura que marcou a NFL como jogador, técnico e personalidade pública. Na coluna de Jarrett Bell, o relato de Jim Harbaugh mostrou um lado menos conhecido do ex-comandante do Chicago Bears.
Harbaugh, escolhido pelos Bears na primeira rodada de 1987, protagonizou um episódio famoso em 1992. Com Chicago vencendo o Minnesota Vikings por 20 a 0 no último quarto, mudou a jogada chamada por Ditka. Seu passe passou por Neal Anderson e foi interceptado por Todd Scott, que devolveu para touchdown e iniciou a reação na vitória de Minnesota por 21 a 20.
Ditka repreendeu o quarterback diante das câmeras. Ao lembrar o treinador na entrevista de sexta-feira, porém, Harbaugh preferiu contar uma experiência particular: viu Ditka escrevendo cheques de US$ 500 para pessoas que haviam enviado cartas pedindo ajuda, embora não as conhecesse.
Harbaugh disse que o técnico nunca promovia publicamente essa generosidade. Comparou sua essência ao poema “If”, de Rudyard Kipling, e ao trecho conhecido como “The Man in the Arena”, do discurso de Theodore Roosevelt de 1910, chamando-o de um verdadeiro herói americano.
A identidade dos Bears
Ditka chegou à NFL como escolha de primeira rodada de Chicago em 1961 e retornou como técnico cerca de duas décadas depois. Liderou o time de 1985 ao título do Super Bowl XX, com uma equipe de personalidade marcante, celebrada também no vídeo “The Super Bowl Shuffle”.
Jeff Fisher, safety escolhido na sétima rodada em 1981 e campeão em 1985 mesmo na reserva de lesionados, afirmou que Ditka se relacionava com todos os jogadores e administrava suas personalidades sem tentar moldá-las. Após a morte do treinador, os Bears colocaram a bandeira a meio mastro em Halas Hall.
Sua ligação com Pittsburgh também era forte. Na universidade, além de atuar como tight end e punter, jogou basquete e beisebol.
Cowboys, Saints e ajuda a ex-jogadores
Ditka encerrou sua carreira de 12 temporadas como jogador e treinador no Dallas Cowboys, recebendo o último touchdown da vitória no Super Bowl VI contra Miami. Roger Staubach lhe atribuiu influência na união daquele time. Dan Reeves relatou que foi Ditka quem sugeriu o uso da formação shotgun para dar mais tempo a um quarterback capaz de escapar da pressão.
Ele trabalhou por nove anos nos special teams da comissão de Tom Landry. A intensidade também apareceu quando lançou uma bola que atingiu o defensor Ron Johnson, dos Steelers, após Johnson derrubar Drew Pearson fora de campo. Os dois lances provocaram penalidades.
No New Orleans Saints, Ditka teve campanha de 15-33 em três anos. Bell lembra criticamente a troca de todas as escolhas do draft de 1999, mais uma de primeira e outra de terceira rodada do ano seguinte, pelo direito de selecionar Ricky Williams na quinta posição geral.
Depois, Ditka foi analista de estúdio da ESPN. Bell explicita sua discordância das posições políticas do ex-técnico, lembrando uma manifestação de Donald Trump, mas ressalta o respeito pelo trabalho de Ditka em favor de benefícios médicos e auxílio financeiro a jogadores aposentados por meio do Gridiron Greats Assistance Fund.
Ditka foi o primeiro tight end e o primeiro atleta de Aliquippa, na Pensilvânia, a entrar no Hall da Fama. Tony Dorsett, Darrelle Revis e Ty Law também representariam a cidade na instituição.
Uma posição transformada
George Halas escolheu Ditka na quinta posição geral para ampliar as possibilidades do tight end. Na temporada de estreia, em 1961, ele recebeu 56 passes para 1.076 jardas e 12 touchdowns em 14 partidas.
Seu recorde de 75 recepções para um tight end, de 1964, resistiu até a atuação de Kellen Winslow no sistema Air Coryell dos Chargers em 1980. Até então, apenas outro jogador da posição, Jackie Smith em 1967, havia passado de mil jardas. O recorde de jardas de um tight end novato só foi superado por Brock Bowers em 2024.
Jim Porter, diretor executivo do Hall da Fama, destacou a competitividade, o estilo físico e a capacidade de Ditka de bloquear e castigar os defensores após as recepções.
Dan Campbell também recordou uma entrevista com Ditka no combine de 1999. O futuro técnico dos Lions entrou em um ambiente quase vazio, com pouca luz e cheio de fumaça, onde via ao fundo a silhueta do treinador e seu grande charuto. Campbell descreveu a experiência como marcante e intimidante.
Para Bell, essas lembranças ajudam a explicar a singularidade de Ditka e a dimensão de sua influência, que ultrapassou Chicago e continuou visível muito depois do fim da carreira.