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Seydou Traore: a trajetória do britânico que chegou à NFL pelo Draft

De goleiro no sul de Londres a escolhido pelos Dolphins, Seydou Traore completou o caminho da NFL Academy ao futebol universitário e ao Draft de 2026.

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Trajetória de Seydou Traore: seletivas da NFL Academy em 2019, Pro Day em 2025 e atuação por Mississippi State.
Trajetória de Seydou Traore: seletivas da NFL Academy em 2019, Pro Day em 2025 e atuação por Mississippi State.Crédito: NFL UK/NFL Academy/Getty Images

Seydou Traore esperou quatro horas pela ligação que mudaria sua vida. Quando o Miami Dolphins telefonou durante o Draft da NFL de 2026, o britânico permaneceu tranquilo; ao seu lado, a mãe, Zaia, chorou e celebrou o fim de uma longa espera.

Aos 23 anos, Traore tornava-se o primeiro ex-aluno da NFL Academy da Inglaterra a completar o percurso inteiro: formação no programa, futebol americano universitário nos Estados Unidos e seleção no draft. Sua história foi contada pela BBC Sport em um perfil publicado em 30 de julho de 2026.

Zaia, de origem franco-argelina, comemorou com uma “zaghrouta”, o som de celebração tradicional no norte da África. A reação viralizou.

“Eu estava em transe”, contou. “Era orgulho e alívio, porque foram anos, e tudo valeu a pena.”

Entre tantos vídeos sobre sua conquista, o da mãe era o que Traore continuava revendo. Ela conhecia o esforço necessário para chegar à NFL — incluindo cinco anos sem reencontrar a família depois de se mudar para os Estados Unidos.

Do gol em Londres à NFL Academy

Nascido e criado no sul de Londres, Traore experimentou diferentes modalidades e jogava futebol como goleiro quando conheceu o futebol americano, aos 16 anos, no London Warriors.

Em 2019, entrou na primeira turma da NFL Academy, programa de desenvolvimento inicialmente sediado no norte de Londres e depois transferido para Loughborough. A iniciativa recebe atletas de diferentes esportes, sem exigir experiência anterior no futebol americano.

A academia foi criada para ajudar jogadores internacionais a conquistar bolsas universitárias e se preparar física e mentalmente para a NFL. O desafio é grande: cerca de um milhão de adolescentes praticam a modalidade no ensino médio dos Estados Unidos a cada ano, e aproximadamente 0,08% chegam à liga.

Traore se dedicava todos os dias e acordava às 5h para estudar e treinar. No verão seguinte, conseguiu uma vaga na Clearwater Academy, escola da Flórida.

Ele contou à mãe que vinha conversando com americanos e que iria para os Estados Unidos. Zaia explicou que não teria dinheiro para visitá-lo. Sua irmã, Zeinab, quatro anos mais velha, também se preocupava com a mudança para cerca de 4.500 milhas de casa.

Vídeos revelaram um talento ainda pouco conhecido

Traore produzia vídeos para mostrar suas habilidades. Um deles chegou ao treinador Jesse Chinchar, da Clearwater, que viu um jovem de 6 pés e 3 polegadas saltando para receber a bola com uma mão.

Ainda não havia vídeos de partidas completas: Traore não tinha disputado um jogo de futebol americano no formato completo. Mesmo assim, a escola, acostumada a recrutar atletas internacionais, decidiu apostar em seu potencial.

“Conversamos com Seydou e sentimos que ele iria competir e queria aquilo pelos motivos certos. Dava para perceber o quanto significava para ele”, explicou Chinchar.

O treinador entendeu que aquela oportunidade poderia mudar a vida do jogador. Desde o primeiro dia, percebeu que havia encontrado algo especial.

Traore aprendeu o primeiro livro de jogadas em poucos dias. Atuando como wide receiver, rapidamente se destacou contra jovens que praticavam o esporte desde a infância.

Para ele, a experiência como goleiro ajudou na coordenação entre mãos e olhos, na leitura da trajetória da bola e nos saltos.

“É assim no futebol americano: quando jogam a bola para você, você a ataca no ponto mais alto”, disse.

Chinchar também relacionou a experiência no futebol à percepção dos espaços, uma habilidade que considerava subestimada no futebol americano.

Jerry Rice, Travis Kelce e a mudança para tight end

Ainda na NFL Academy, em 2019, Traore conheceu Jerry Rice e o entrevistou para um vídeo. A lenda da NFL recomendou que se entregasse completamente ao que tentava realizar.

O desenvolvimento também apareceu no físico. Desde as seletivas de 2019, Traore passou de 193 libras, cerca de 87 quilos, para 244 libras, aproximadamente 111 quilos: um aumento superior a 25%, sem perder velocidade ou capacidade atlética. Ele atribuía a evolução à regularidade nos treinos e na alimentação.

Quando chegou a hora de escolher uma universidade, Traore acreditou que poderia conseguir uma proposta melhor que a primeira recebida. A oportunidade veio de Arkansas State.

O treinador Butch Jones viu semelhanças com Travis Kelce, a quem havia treinado em Cincinnati e ajudado a desenvolver como tight end.

“O tamanho e a estatura de Seydou, combinados com sua capacidade atlética — a maneira como corria e recebia a bola — faziam dele um talento raro”, disse Jones. “Ele tinha potencial ilimitado.”

Traore já havia se comprometido com outra universidade. Para convencê-lo a mudar, Jones organizou uma chamada de vídeo com Kelce, que aconselhou o britânico e o incentivou a confiar na comissão.

Ele assinou com Arkansas State em fevereiro de 2021 e passou a atuar como tight end. Traore se via como uma grande porção de argila que o treinador poderia moldar; Jones o descrevia como uma esponja na absorção de informações.

O salto de desenvolvimento ficou claro no segundo ano. Em 2022, foi reconhecido como o melhor tight end da Sun Belt Conference, mas desejava disputar o principal nível do futebol universitário.

Transferências e uma temporada sem jogar

Traore passou o início de 2023 em Colorado, onde um treinador da posição questionou publicamente sua disposição física e dedicação.

Jones manteve contato durante aquele período difícil. Segundo ele, o jogador enfrentou adversidades, mas nunca desistiu e continuou combatendo as dúvidas que poderiam surgir longe de casa.

“Lembrar do que havia deixado para trás e do que tentava me tornar era muito motivador”, afirmou Traore.

Após um período em Colorado, ele se transferiu para Mississippi State, da Southeastern Conference. Por ter mudado de universidade duas vezes em pouco tempo, as regras da NCAA o impediram de atuar em 2023.

Traore só podia treinar e decidiu tratar aquele ano como uma oportunidade para melhorar. Quando estreou por Mississippi State em 2024, tornou-se uma das principais opções de recepção da equipe.

Em 2025, chamou a atenção de observadores da NFL, marcou cinco touchdowns — sua melhor marca — e ganhou a simpatia dos torcedores com a comemoração de tomar chá, uma referência ao estereótipo britânico.

A família o visitou duas vezes e o reencontrou após cinco anos. Viu também a dimensão do esporte universitário americano: sobrevoo militar, fogos de artifício e o som dos sinos entre cerca de 60 mil pessoas, uma tradição de Mississippi State.

A ligação dos Dolphins e o apoio de Efe Obada

O próximo passo era o draft, processo de sete rodadas e três dias que seleciona aproximadamente 260 atletas por ano. Na edição de 2026, o público acumulado em Pittsburgh chegou ao recorde de 805 mil.

Traore era projetado para o último dia, quando ocorrem as rodadas de quatro a sete. Os Dolphins o escolheram no fim da quinta.

Efe Obada estava no evento para apoiar os candidatos internacionais. Também vindo do London Warriors, o ex-jogador é embaixador da NFL Academy e havia visto Traore nas seletivas de 2019.

Ao saber da escolha, Obada procurou o comissário Roger Goodell e pediu para participar do anúncio. Os dois foram juntos ao palco.

“Pensei que seria simbólico, uma passagem de bastão”, explicou Obada. “Queria que as pessoas soubessem que aquele era um momento. Ser escolhido no draft não acontece simplesmente. Esse esporte exige resistência e compromisso.”

Aden Durde, antigo treinador do London Warriors e coordenador defensivo britânico que ajudou o Seattle Seahawks a conquistar o Super Bowl em fevereiro, também comemorou a trajetória.

“Essa era a visão da NFL Academy todos aqueles anos atrás. Ele é o primeiro, e haverá muitos outros”, afirmou.

Travis Clayton já havia sido o primeiro ex-integrante da academia escolhido no draft, mas passou brevemente pelo programa em 2019 e não jogou em uma universidade americana. Por isso, Traore foi o primeiro a completar todo o caminho previsto. Desde a criação da academia, mais de 75 alunos haviam conquistado bolsas universitárias nos Estados Unidos.

Contrato de novato e um novo começo

No palco do draft, Traore se envolveu em uma bandeira britânica, colocou o boné dos Dolphins e fez sua comemoração de tomar chá.

Em junho, demonstrou mais emoção longe dos holofotes: assinou um contrato de novato de quatro anos, no valor de US$ 4,8 milhões, aproximadamente £3,6 milhões.

Ele e Zeinab costumavam brincar sobre quem compraria primeiro uma casa para a mãe. Ao assinar o acordo, Traore entendeu que havia passado à frente da irmã nessa disputa — e foi para ela que telefonou para contar a novidade.

Na época do perfil, em julho, ele tentava conquistar uma vaga no elenco de Miami durante o training camp. A seleção no draft não garantia participação imediata: a reportagem previa a redução dos grupos de 90 ou 91 atletas para 53 até 31 de agosto.

Traore seguia confiante, mas considerava que sua trajetória ainda estava apenas começando. “É bom estar aqui”, disse. “Mas continuo dizendo a todos: é só o começo.”

Seydou Traore e Jerry Rice na NFL Academy, em 2019.
Seydou Traore e Jerry Rice na NFL Academy, em 2019.Crédito: NFL UK/NFL Academy
Seydou Traore se estica para receber a bola.
Seydou Traore se estica para receber a bola.Crédito: Getty Images
Seydou Traore faz sua comemoração de tomar chá.
Seydou Traore faz sua comemoração de tomar chá.Crédito: Getty Images
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