Opinião: Browns surpreendem na liderança, com Watson no centro do debate
Com campanha de 4–2, Cleveland desafia as expectativas. Jay Busbee analisa a defesa, o calendário e a controvérsia em torno de Deshaun Watson.
Há algumas verdades que parecem dispensar explicação: o sol nasce no leste, os filmes de Star Wars eram melhores quando éramos crianças e o Cleveland Browns será sempre — sempre — um time ruim.
Mas o que acontece quando uma dessas certezas deixa de funcionar? E se, por mais estranho que pareça escrever isso, os Browns forem bons?
Ao fim da Semana 6, Cleveland lidera a AFC North pelos critérios de desempate, com campanha de 4–2. É um retrospecto melhor que o do atual campeão Seattle Seahawks e o do Los Angeles Rams, tratado antes da temporada como um supertime, além de representar mais vitórias que as obtidas por qualquer equipe da NFC South ou da NFC East até aqui. Desde 2014, os Browns não chegavam tão longe em uma temporada na primeira colocação da divisão. A própria existência dessa estatística já diz muito sobre a franquia.
Esta análise de Jay Busbee parte dessa surpresa para discutir tanto o desempenho em campo quanto o incômodo que acompanha o protagonista da reação de Cleveland.
A resposta que pouca gente queria
Como os Browns chegaram a esse ponto? A resposta dificilmente vai agradar a todos. Na entrada da temporada, o diagnóstico era o de um elenco com talento dos dois lados da bola, mas com um vazio justamente no centro de tudo: a posição de quarterback.
O problema acompanha Cleveland há décadas. Ficou ainda mais evidente quando a direção acumulou escolhas de draft e, contrariando velhos hábitos, conseguiu usá-las bem. Havia peças interessantes ao redor; faltava quem conduzisse o ataque.
Shedeur Sanders não foi a solução. Dillon Gabriel também não. Joe Flacco tampouco resolveu a questão. No fim, o quarterback capaz de levar os Browns às vitórias acabou sendo aquele que muita gente não gostaria de ver nesse papel.
Deshaun Watson tornou-se a resposta para os problemas de Cleveland na posição. Claro que tinha de ser ele, ironiza Busbee.
Watson foi acusado por dezenas de mulheres de agressão ou má conduta sexual. Em 2022, fechou acordos em 23 de 24 ações civis; ele negou irregularidades. Esse histórico torna sua presença como rosto da franquia especialmente controversa.
Para o autor, em praticamente qualquer outro ambiente de trabalho, Watson teria sido afastado e esquecido anos atrás. A NFL, porém, abre espaço para a reabilitação de jogadores cujo talento considera valioso demais para descartar. Na avaliação de Busbee, o quarterback se instalou justamente nessa zona de tolerância.
O tribunal da opinião pública continua a existir, mesmo que Cleveland e outras equipes tenham demonstrado, ao disputar a contratação de Watson, pouca disposição para se submeter a ele. Na leitura do colunista, o cumprimento das exigências da liga permite que o jogador volte a ser avaliado sobretudo pelo que faz em campo.
Busbee também critica o uso da palavra “adversidade” por narradores e comentaristas para tratar do passado do quarterback. Para ele, o eufemismo suaviza a gravidade das acusações. Por mais desagradável que isso seja para parte do público, o desempenho de Watson está levando a discussão de volta ao futebol americano, deixando em segundo plano a controvérsia fora das quatro linhas.
Sem dominar, mas sem entregar os jogos
Dentro de campo, o sucesso de Watson exige algumas ressalvas. Ele não está dominando as partidas, mas também não as está perdendo sozinho. Na NFL desta temporada, isso já tem sido suficiente para manter uma equipe competitiva.
O quarterback soma sete passes para touchdown e duas interceptações, com passer rating de 92,0 e aproveitamento de 63,8% nos passes. São 1.174 jardas aéreas, média de 195,7 por jogo. Não são números para impor uma supremacia sobre a liga, mas bastam para sobreviver em jogos equilibrados.
Os Browns estão encontrando uma identidade ao redor dele. A defesa perdeu Myles Garrett em uma troca, mas continua capaz de conter ataques adversários.
Contra o Baltimore Ravens, no domingo, Cleveland cedeu dez pontos no primeiro quarto e nenhum no restante da partida. Isso permitiu que Watson e o ataque avançassem aos poucos, sem precisar transformar o confronto em uma disputa de pontuação elevada.
Um fumble decisivo de Derrick Henry abriu caminho para um touchdown. Dois field goals completaram a produção ofensiva dos Browns, incluindo o chute da vitória no último lance.
O técnico Todd Monken, em seu primeiro ano no comando da equipe, decidiu aproveitar o resultado antes de pensar no compromisso seguinte:
“Vou curtir esta noite. É isso que você precisa fazer na NFL. São noites que você nunca quer que acabem, porque amanhã já é hora de pensar no próximo jogo.”
Um calendário que permite sonhar
A boa notícia para Cleveland é que o próximo adversário é Tennessee, que atravessa dificuldades. Depois vêm Pittsburgh Steelers, New Orleans Saints e Houston Texans. Na avaliação de Busbee, há uma sequência de oportunidades reais de vitória.
Entre os adversários restantes no calendário dos Browns, o único que lidera sua divisão neste momento é o New York Giants, primeiro colocado da NFC East. O conjunto dos confrontos, portanto, está longe de parecer intimidador.
Para o colunista, esse certamente não é o modelo ideal de construção de um time: um quarterback cercado de controvérsias e uma defesa que depende mais de aproveitar oportunidades do que de dominar pela força. Ainda assim, o modelo está funcionando em Cleveland.
Em uma temporada sem uma equipe claramente superior às demais, avançar devagar, com constância, pode ser suficiente para continuar na disputa.
Isso não significa prever que os Browns terminarão com campanha de 15–2. A provocação final de Busbee é que essa possibilidade deixou de ser absolutamente inconcebível. E, se Cleveland agora é bom, quantas outras certezas do torcedor também precisam ser revistas?